Segunda-feira, 16 de Setembro de 2013

O desmaio das criancinhas

             Já passava da meia-noite, quando o marmanjão, com dezasseis anos de idade, “uma criancinha na versão pós-25”, se dirigiu para o quarto de dormir. Tinha passado as últimas duas horas a ver uma treta qualquer de um jogo de futebol, na TV da sala. Acompanhado pelo idiota do pai, que ia esvaziando garrafas de cerveja, umas atrás das outras, enquanto invetivava ora o árbitro, ora os jogadores.

                Também ele já se tinha embriagado várias vezes, nas suas andanças nocturnas. Roubado um carro e quebrado umas montras. Mas ali: ao pé do velho, entretinha-se com uma garrafa de coca-cola. A mãe: há muito que tinha adormecido a ver a sua novela preferida na TV do quarto.

                Aí chegado, espreguiçou-se como um gato, pegou na mochila, onde carrega pelo segundo ano consecutivo os livros do sétimo ano, e retirou de lá um pequeno embrulho. Mirou e remirou o seu conteúdo, manipulando aqueles artefactos como se fossem objectos sagrados. Raspou, lambeu, enrolou, acendeu e fumou. E tornou a fumar. De vez em quando levava a garrafa de litro e meio de coca-cola à boca.

                Ligou o computador, como era seu hábito, começando logo a ver filmes pornográficos, do mais escabroso que há. Masturbou-se várias vezes. Já passava das quatro horas, quando, exausto e meio aturdido se atirou para cima da cama. Com um pé, tirou a sapatilha do outro, e mais nada, pois estava demasiado cansado para se curvar. Não se pode dizer que tenha dormido, porque naquele estado, visões fantasmagóricas povoaram-lhe a mente durante o escasso tempo que permaneceu deitado.

Acordaram-no às  sete horas: “Vá menino! O pequeno-almoço está pronto.” E, saíram porta fora, pai e mãe. “Aquele quarto tem um cheiro esquisito, parece o covil de um javali!” – disse o pai. “Cala-te homem, coitadinho do menino!”.

Num estado de sonambulismo, qualquer paciente é capaz de executar várias tarefas, sem disso ter a menor consciência. E assim aconteceu: levantou-se, calçou as sapatilhas, certificou-se que as calças do tipo cú descaído, como estava na moda, deixavam à mostra metade das cuecas de nylon de cor preta, pegou na mochila e saiu. Nem da cozinha se lembrou.

Já na sala de aulas, completamente pedrado, o barulho dos colegas parecia-lhe um zumbido vindo do espaço. Da professora só conseguia distinguir a silhueta, e de tanto se esforçar, para distinguir melhor os contornos, vislumbrou a mítica esfinge, e num ápice, a vista enevoou-se-lhe de vez, tombando, desmaiado.

            No dia seguinte, noticia de primeira página e abertura de telejornais:  a austeridade está a provocar uma tragédia nacional, já há criancinhas a desmaiar na escola, por não tomarem o pequeno-almoço. Blá. Blá. Blá.

                 Noutras paragens, centenas ou milhares de “adultos”, com idades compreendidas entre os dez e os catorze anos, também adormecem todos os dias, completamente exangues. Mas porque o fazem sobre as máquinas de costura, onde, para sobreviver, passam dez horas a coser as sapatilhas NIKE dos nossos marmanjões, não tem direito a desmaios nem a escolas.

Marmanjões, é só na minha versão que sou ignorante. Porque para “os sábios do pós-25 de Abril” trata-se efectivamente de criancinhas, inocentes, traumatizáveis para o resto da vida, com um simples beliscão. Por isso, intocáveis e inimputáveis.

              Já agora, aproveito para dizer que vejo todos os dias uma subsidiada despejar  “oito litros de leite” na frincha da máquina de cigarros. Uma outra, passear-se num carro que excede em muito o valor dos meus três carros que eu tive em 64 anos de vida. Mas existem milhares que eu não vejo. Por isso, eu, que comecei a trabalhar aos sete anos, depois de já ter trabalhado nove meses na barriga da minha mãe, por não existir subsidio a parideiras, nem nenhuma espécie de cucos. Não sei quem me causa mais asco: se os ladrões engravatados, eleitos ou nomeados, para governarem esta caverna de ALI-BÁ-BÁ, ou esta turba de: parasitas, oportunistas, vigaristas, falsários, carenciados, subsidiados, endividados, envergonhados, desenvergonhados, drogados e amancebados, igualmente da sua lavra. E à qual muitos insistem em lhe chamar: estado social! Para mim, trata-se de uma estado parasitacional.  “Todos me roubam! Quem cantarei?” – por Telmo Fontes in A Aurora do Lima



sinto-me:
publicado por fm às 21:33
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